quinta-feira, 22 de julho de 2010

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Quintanesca


O caminhão de frutas tomba na maior avenida do mundo.

As laranjas rolando morro abaixo escapam da voracidade dos espremedores.
As bananas, embananadas, coitadas, não conseguem se virar
E aguardam o resgate da força-tarefa famélica de mendigos.

Julho, 2010

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segunda-feira, 30 de abril de 2007

Mistérios

MISTÉRIOS

Os mistérios são muitos,
o sentimento é um só,
o buraco no coração é devorador,
a carência parece infinita,
a solidão desaba como uma chuva sem vento.

Proponho fazer uma poesia com o teu corpo
Não penso nem em ser teu dono,
quero apenas que minha língua fale por mim
num idioma que te enterneça e te arrepie.

São Paulo, 2007

As Mãos de Felipe

AS MÃOS DE FELIPE

Erguendo a mão direita, em gesto intempestivo,
Felipe canta um tango e silencia o mundo!
Cantor malabarista, mano a mano vivo,
Felipe é exclusivista; um bardo furibundo!

E pobre do infeliz que, por qualquer motivo,
Intrometer no tango o seu grasnar imundo!:
Felipe, fulminando o incauto patativo,
fuzila-o com a mão, num desdenhar profundo.

E nós que, por destino, somos o auditório,
E temos que escutá-lo — e sempre embevecidos! —
rogamos que ele, ao menos, mude o repertório!Que sorte não vigorem credos esquecidos
que amputam do culpado o membro vexatório!:
um, perderia a mão! Os outros, os ouvidos!

São Paulo, 1982

O Tombo do Chico

O TOMBO DO CHICO

Chico de Assis em noite de ousadia
Caiu de moto e machucou a mão.
Entra no "Elias" — e, por terapia,
grita mil ciclos. Fica rouco em vão.

Senta-se à mesa junto à confraria;
tenta outra coisa: gelo. Que ilusão!
De mão inchada, volta no outro dia.
Radiografado, traz a solução.

— Foi o escafóide — ossinho misterioso,
que, contundido, afeta a lucidez,
e me deixou ainda mais zureta.

Em conseqüência, Chico, autor famoso,
Com 4 letras vira "punk" inglês,
E, noutro tombo, cai da "caixa preta".

São Paulo, 1984

Poema Tupifagicômico

POEMA TUPIFAGICÔMICO

Estávamos em greve
............................... E a Pada ria
Estávamos com fome
............................... E a Pada ria
Estávamos com sede
............................... E a Pada ah! ah! ah!

................................Fágicos
...........Fornos poli....... Trágicos...Padá-badá-badá!
............................... Sádicos

A piramidal/onívora em-pada-ria
Glutona impa(vi)daria porca ria
Parturiente ininter
.....................(cor)rupta de antipão

Pan(mist)ificadora
...............................Desartesã
...............................Forno de intrig(o/a)

Janeiro de 1980

Poema para Zezinha

POEMA PARA ZEZINHA

A beleza é um gesto longo de caminho
(que nunca vai chegar)
Com alguns pássaros, correntes ascendentes
E a solidão, o vento, a vela
a levitar.

Meu elemento é o ar. O amor... o amor é o vento.
O ar é meu sustento
a casa, a rosa, o acaso.
E o infinito é o prazo; o eterno a distância.
E todas as palavras cabem em meu silêncio.

E de repente eu venço, invento a ventania,
Um vendaval revolto, um nome de Maria;
o coração em alfa, a solidão em beta,
o corpo velejando voa em asa delta —
e a alma já não pesa, reza, Zeza,
Zeza, Zezinha, coisa amada, coisa minha, Zeza Deusa —
acesa como fogo — em festa, em maravilha!

1981